Volume 6 Número 1 Ano 2007
Autor:Manuel Alves Rodrigues
AFASTAR OS EMBONDEIROS E DEIXAR ENTRAR A LUZ
Autor: Manuel Alves Rodrigues
Galego
Imaginemos três tipos de pessoas...

Um primeiro grupo de pessoas que, por seu estilo pessoal, pela hierarquização que faz dos seus valores de referência, preferem levar um vida de pouco envolvimento na res pública, através de algumas tácticas de evitamento e uma aparente postura de desinteresse pelos compromissos com os outros.

Um segundo grupo de pessoas que exterioriza toda a sua emoção na denúncia daquilo com que não concordam, indicando os objectos de prova, ao mesmo tempo que tentam explicar que o que não está bem se deve a alguma coisa que os outros não fizeram ou que fizeram incorrectamente.

Um terceiro grupo de pessoas, são os que nos surpreendem, nos fazem parar e nos enchem o coração duma espécie de ciúme saudável. Para elas tudo parece estar bem, mesmo que, tudo à sua volta, seja aparência de caos. Normalmente incentivam e estão presentes independentemente de recolherem ou não frutos imediatos da acção.

Sobre o primeiro grupo de pessoas, temos que considerar de forma optimista, que, provavelmente estão a guardar todas as suas energias para coisas em que esperam ainda vir a acreditar e aí sim, libertar todo o seu potencial de “locus interno”, e revelar-se em toda a sua plenitude de ser humano, comprometido consigo e com o mundo. Quantas vezes “de uma fraca moiteira sai um bom coelho”, por essas pessoas temos que esperar pacientemente como quem espera por um bom vinho velho.

Sobre o segundo grupo, naturalmente também eles desejam um mundo melhor. O seu único problema é que, entendem que o seu mau estar se deve a outros. Numa primeira fase geram no nosso espaço vida alguma inquietação e mesmo revolta. Não podemos no entanto usar a nossa frustração para criticar os actos frustrados dos outros. Neste sentido, este tipo de pessoas podem ser muito importantes na nossa vida, uma vez que nos obrigam a flexibilizar a todo o momento as nossas estratégias, a reconhecer a ineficácia das nossas acções, a aceitar como a ciência explica uma tão pequenina parte da realidade e compreender o quanto temos que aprender com os outros na nossa caminhada.

Sobre o terceiro grupo de pessoas, somos levados a acreditar que já deram a volta ao mundo pelo menos um milhão de vezes, não sabemos como, talvez por inexplicáveis transmutações qualitativas. Não sabemos o seu segredo, apenas sentimos que, insuflam na nossa vida uma espécie de cosmos e nos ajuda a levantar de manhã com o propósito de mudar as cores do mundo. O estado de nirvana destas pessoas, gera um campo de energia que podemos absorver se abrirmos as nossas janelas de acessibilidade as quais por vezes se apresentam vedadas pelo nevoeiro das nossas rotinas e teimosias. Essas pessoas caminham, para poderem falar do seu percurso, e põem luz no caminho daqueles que prometem caminhar mas não o fazem por falta de acreditar nos seus próprios recursos e objectivos.

Imaginemos agora que estes diferentes tipos de pessoas podem existir dentro duma só pessoa, e cada um destes tipos tende a exteriorizar-se de forma dominante por razões que ninguém consegue explicar muito bem .

Muitas vezes temos a tendência dominante característica do primeiro tipo de pessoas e embarcamos na chamada “suave rotina”, como se a mudança seja tarefa de alguma magia da Escola de Potter.

Quando somos assaltados pelos impulsos característicos do segundo grupo de pessoas, fazemos belas récitas de “catarse”, projectamos nos outros as nossas angústias, damos a entender que identificámos a causa das causas do mal e só temos que as atacar num esforço guerreiro de desmoralização. No entanto daí quase sempre saímos mais infelizes que quando entrámos e o pior é que, criamos alguma confusão à nossa volta.

Porém, quando num dia de sol, assumimos a postura do terceiro grupo de pessoas, aí qual beija-flor vamos colocando a nossa gotita de água na fúria das chamas e por entre a troça dos outros lá vamos dizendo que já cumprimos a nossa parte.

Normalmente temos dificuldade em encontrar coragem e contexto para pensarmos que tipo de pessoa somos ou melhor, estamos a ser.

O auto-conhecimento é condição do desenvolvimento dum quadro de competências pessoais que nos ajudem a entender como nos tornamos pessoa. É muito difícil tornarmo-nos naquilo que somos, na exacta medida em que temos dificuldade em saber quem somos!

É difícil conhecermo-nos a nós próprios e no entanto esse é o único caminho para conhecermos os outros. Ao estilo da janela de johari a única maneira de diminuirmos a área cega do nosso Eu é ampliarmos a área livre, abrindo-nos à critica e deixando que os outros nos conheçam.

A tarefa de em cada dia nos confrontarmos, nos procurarmos, é mais difícil quando temos medo de encontrar alguma coisa que nos agrada menos. Como antídoto, nada melhor que avançar com um discurso interno positivo, admitindo que quem não tem pecados também não tem virtudes. Afinal nós podemos integrar características dos três tipos de pessoas anteriormente descritas. Ninguém é perfeito!.. temos mesmo é que nos perdoar e aceitar tal como somos, acreditando que podemos sempre mudar. Como referia Carl Roger o que a vida tem de melhor é que tudo muda, tudo flúi, nada está fixado”.

É a tolerância que faz com que possamos aceitar os nossos erros e insucessos para melhor entendermos os erros e dificuldades dos outros.

Esta vontade de ver mais claro o que se passa dentro, para compreender melhor o que se passa entre, de se tolerar para tolerar o outro, é o ás de trunfo do terceiro tipo de pessoas que atrás descrevemos. A tolerância abre-lhes os olhos do coração e dá-lhes disponibilidade física e espiritual, condição de abertura à experiência e ao mundo.
A sua disponibilidade de abertura à experiência, mais propriamente à inter-experiência, dá-lhes todos os dias a possibilidade de se comprometerem com a sua própria mudança na expectativa de poderem ajudar os outros a mudar. Tal como essas pessoas, aqueles que se propõem ser profissionais de saúde “pessoas que cuidam de pessoas”, precisam de cultivar essa força do diálogo experiencial de partilha.

A abertura à experiência é uma dimensão da personalidade criadora e empreendedora.

Se soubermos tolerar o que nos é estranho à primeira vista e compreender que por vezes, o que está não se vê ou o que parece não é (o essencial é invisível aos olhos), estamos em condições de pôr em marcha os nossos projectos pessoais.


Embondeiros



Máxima: ...vamos lá a afastar os embondeiros e deixar entrar a luz ...

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